Peregrina na França

Em 2018 eu iniciei um projeto com que sonhava há muito tempo. Quando ia fazer 30 anos, planejava realizar o Caminho de Santiago, na Espanha, caminhando por 1 mês da fronteira da Espanha com a França, até Santiago de Compostella na Espanha. Por vários motivos aquela viagem não aconteceu naquela época, mas o sonho nasceu, cresceu e se desenvolveu ao longo desses anos até que resolvi colocar os pés na trilha – iniciando minha peregrinação em Le Puy-en-Velay, na França –  e caminhar alguns dias por ano, até chegar em Santiago. Sem pressa.

via podiensis

Assim a primeira etapa da minha viagem seria caminhar por 4 dias um total de 86km, de Le Puy até Aumont-Aubrac. Me preparei por meses e parti. Me empolguei tanto que percorri os 86km em 3 dias, em vez de 4. Foi um erro, entre outros que cometi nessa primeira etapa. Aprendi com eles. Aqui vai um resumo dessa primeira experiência.

Marido foi comigo para o fim de semana. Em Paris fiz o basicão com ele, que não conhecia a Cidade-Luz. Nos hospedamos em Montmartre, comemos brunch no Marcel, caminhamos da Arco do Triunfo até a Notre-Dame, passei na Shakespeare & Co, um dos meus lugares preferidos na cidade, e subimos a Torre Eiffel de escada (o que eu recomendo altamente: dificilmente você vai encontrar fila pra comprar o ingresso ou pra esperar o elevador).

Na segunda-feira, marido voltou pra casa e pros filhotes, e eu, em plena greve da SNCF, consegui pegar um trem e um busão e chegar em Le Puy bem tarde da noite; atavessei a rua e lá estava um Ibis Budget, onde me hospedei.

No dia seguinte acordei às 6, tomei um bom banho, um bom petit-dej, botei a mochila nas costas e parti pra Catedral de Le Puy, de onde minha caminhada iniciaria. Houve uma missa rápida e bonita às 7. De lá recebemos a bênção do padre, fui buscar minha Credencial do Peregrino e botei os pés no Caminho às 8 e meia, cheia de gás!

Os primeiros 12,5 km foram tranquilos. Caminhei rápido, numa média de 11 minutos por km. Chegando numa pequena fonte, encontrei dois belgas – o Olivier e o Patrick – com quem caminhei um pouco até a parada para o almoço, mais uns quilômetros à frente.

Ao fim de um total de 29km, chegamos a Monistrol-d’Allier. O Patrick ficou no albergue mais baratinho da cidade, e eu em outro albergue onde eu podia pagar com cartão de crédito. Por €33,5 eu tive um quartão confortável só pra mim, jantar e café da manhã incluídos no albergue Le Repos du Pélerin. Os responsáveis foram muito queridos. O jantar foi delicioso e farto, e no dia seguinte depois do café da manhã eu estava novamente me jogando na estrada às 7 e meia.

Nesse dia caminhei sozinha na maior parte do tempo, mas cruzei algumas vezes com o Patrick. Decidi ir até Le Sauvage, e pernoitar no único albergue do que eu acreditava ser uma cidadezinha. Isso significava ter andado 31km nesse dia no total, o que já é muito. Quando cheguei lá, surpresa: o albergue estava lotado e não havia mais nada naquele lugarejo – teria que andar mais 4-5km até o próximo!

Com os ombros latejando e os pés em chamas, me sentei calmamente, tomei um sorvete e decidi me adiantar, pois não havia uma alternativa e já era 4 horas da tarde – logo ficaria escuro. Eu tinha que voltar pra estrada. A dona do albergue Le Sauvage teve a gentileza de me dar o contato de uma senhora que abrigava peregrinos como eu, e essa senhora me buscou em seu Citroën 93 no meio da estrada. Na casa dela me serviu jantar, um quarto com banheira e de café da manhã no dia seguinte, pão com geleia feita das frutas vermelhas do quintal.

De manhã ela me levou exatamente onde tinha me pegado na tarde anterior e continuei meu último dia de caminhada até Aumont-Aubrac 🙂

Esse último dia foi tranquilo e curto comparado com os outros. Chegando em Aumont-Aubrac agradeci, me hospedei num alberguinho, jantei, dormi. No dia seguinte bem cedinho peguei o ônibus pra Montpellier, onde fui curtir um fim de semana com minha amiga Grace*.

Além do Patrick que citei, tive mais vários encontros interessantes com várias pessoas de diferentes idades e culturas pelo caminho. Foi uma das melhores partes da experiência.

Agora estou planejando a segunda etapa dessa peregrinação, que será na primavera de 2019.

Essa próxima parte do post vai abordar principalmente o que levar na mochila – o que levei em 2018 e o que vou levar em 2019. É um compilado do que eu aprendi na prática e do que reuni em vários blogs e videos de peregrinos internet afora. Espero que seja útil!

Mochila

O modelo e o peso da mochila são importantíssimos pro sucesso da peregrinação. O peso dela não deve passar 10% do peso do seu corpo, e em 2018 a minha mochila ficou um pouco mais pesada que isso. Eu caminhei com uma mochila de 50 litros, o que foi um erro. Para esse ano minha mochila será uma Osprey Kyte de 36 litros. A minha primeira mochila só abria no topo e isso me irritou. Minha nova Osprey abre no topo, no fundo e na lateral.

Tênis

Como caminhei (e caminharei esse ano) na primavera, não é necessário usar botas. Em 2018 caminhei com meu tênis de trail run Salomon Speedcross 4, o que não recomendo. Ele é excelente para corridas curtas em trilhas. Mas não para caminhar muitos quilômetros por dias seguidos. Então esse ano minha escolha é o Salomon X Ultra 3.

Três detalhes importantes sobre o sapato: para essa época do ano, eles não devem ter GoreTex (GTX). Essa película torna os sapatos à prova d’água, mas também impede o transporte de suor dos pés, o que contribuiu para minhas bolhas horrendas em 2018. Sapatos sem GoreTex secam rápido se molharem, e os pés respiram e ficam secos. O segundo detalhe: esses sapatos devem ser pelo menos 2 tamanhos maiores do que o seu tamanho normal. Assim como tênis de corrida, durante a atividade os pés incham, precisando de espaço, e nas longas descidas, os pés escorregam muito pra frente dos sapatos. Se não houver espaço…. bolhas! Terceiro e último: USE bastante seu sapato ANTES de ir pra peregrinação. Sapato novo dá bolhas.

Meias

De lã merino, não fedem, secam rápido, mantem a temperatura dos pés estável, e são mega confortáveis. Levei dois pares.

Roupas pra caminhada e pra vestir depois do banho

Também de lã merino. Levei uma de manga longa e uma de manga curta. Além das duas blusas, um fleece, uma jaqueta fina de chuva com capuz (a minha é da The North Face), 2 calcinhas, dois tops de ginástica sem costura , uma calça de trekking/hiking (material fino, elástico, que seque rápido e seja confortável. A minha é da Adidas). Pra usar depois do banho: uma calça molinha, um par de Havaianas, uma blusinha de algodão, um sutiã. Depois do jantar: baby-doll confortável de algodão.

Outros

Levei saco de dormir. Pesa…. e não precisei usar. Não levarei de novo. Um livro: essencial, além do guia. Telefone. Produtos de banho, em versão miniatura: um pente, um vidrinho de condicionador, um sabãozinho de hotel, um shampoo em barra, um desodorante, uma mini-pastinha de dente, uma escova de dente. Protetor solar e boné. Uma bisnaguinha de Voltarem Gel, alguns analgésicos e band-aids. Só! Zero perfume ou maquiagem.

Além da jaqueta de chuva, eu levei um poncho de plástico. Felizmente não precisei dele, mas levarei de novo esse ano. Em 2018 levei uma toalha de rosto. Esse ano vou procurar e investir numa de micro-fibra que seca rápido.

Outras coisinhas que eu sempre tinha à mão: barrinhas de cereal, banana, água (levei minha garrafinha de água de academia) e foi suficiente. A gente passa por mercados ou fontes de água frequentemente no caminho.

Uma mini-carteira só com essenciais: cartão de crédito, algum dinheiro. Passaporte.

Acho que foi tudo. Agora estou me aquecendo para a próxima etapa: Aumont-Aubrac a Figeac 🙂

 

 

 

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Sobre Flavia

Uma brasileira que saiu do Brasil à francesa em 2003 e nunca mais voltou
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